"Não vim trazer a paz, mas a espada"
Foi mesmo Jesus, a personificação da doçura e da bondade, Ele que não deixava de pregar o amor ao próximo, quem disse estas palavras. Mas, então, estas palavras não estão em flagrante contradição com o seu ensino? Não é blasfémia atribuir-lhe a linguagem de um conquistador sanguinário e devastador? Não, não há blasfémia nem contradição porque foi Ele mesmo quem as pronunciou, e elas atestam a Sua elevada sabedoria. Somente a forma um tanto equivoca não exprime exactamente o seu pensamento, o que provocou alguns enganos quanto ao seu verdadeiro sentido. Tomadas ao pé da letra, elas tenderiam a transformar a Sua missão numa missão de turbulências e discórdias, consequência absurda, que o bom-senso rejeita, pois Jesus não podia contradizer-se.
Toda a ideia nova encontra forçosamente oposição, e não houve uma única que se implantasse sem lutas. A resistência, nesses casos, será sempre na razão da importância dos resultados previstos pois quanto maior ela for maior será o número de interesses ameaçados. Se for uma ideia notoriamente falsa, considerada sem consequências, ninguém se perturba com ela, e a deixam passar, confiantes na sua falta de vitalidade. Mas se é verdadeira, se assenta em bases sólidas, se é possível entrever-lhe o futuro, um secreto pressentimento adverte os seus antagonistas de que se trata de um perigo para eles, para a ordem de coisas por cuja manutenção se interessam. É por isso que se lançam contra ela e seus adeptos. (...)
Jesus vinha proclamar uma doutrina que minava pelas bases a situação de abusos em que viviam os Fariseus, os Escribas e os Sacerdotes do seu tempo. Por isso o fizeram morrer julgando matar a ideia com a morte do homem. Mas a ideia sobreviveu, porque era verdadeira ... (...) ela subvertia as crenças seculares, a que muitos se apegavam, mais por interesse do que por convicção. Era lá que as lutas mais terríveis esperavam os seus apóstolos; as vitimas foram inumeráveis; mas a ideia cresceu sempre e saiu triunfante, porque superava, como verdade, as suas antecessoras.
Observe-se que o Cristianismo apareceu quando o Paganismo declinava, debatendo-se contra as luzes da razão. Convencionalmente ainda o praticavam, mas a crença já tinha desaparecido, de maneira que apenas o interesse pessoal o sustinha. Ora o interesse é tenaz, não cede nunca à evidência e irrita-se tanto mais quanto mais peremptórios são os raciocínios que se opõem e que melhor demonstram o seu erro. Bem sabe que está errado, mas isso pouco lhe importa, pois a verdadeira fé não lhe interessa; pelo contrário, o que mais o amedronta é a luz que esclarece os cegos. O erro lhe é proveitoso, e por isso a ele se aferra, e o defende.
Sócrates não formulara também uma doutrina, até certo ponto, semelhante à do Cristo? Por que então não prevaleceu naquela época, no seio de um dos povos mais inteligentes da terra? Porque os tempos ainda não haviam chegado. Ele semeou em terreno não preparado: O Paganismo não estava suficientemente gasto. Cristo recebeu a sua missão providencial no tempo devido. Nem todos os homens do seu tempo estavam à altura das ideias cristãs, mas havia um clima geral de aptidão para assimilá-las, porque já se fazia sentir o vazio que as crenças vulgares deixavam na alma. Sócrates e Platão abriram o caminho e prepararam os Espíritos.
Os adeptos da nova doutrina infelizmente não se entenderam sobre a interpretação das palavras do Mestre, na maioria veladas por alegorias e expressões figuradas. Daí surgirem, desde o princípio, as numerosas seitas que pretendiam, todas elas, a posse exclusiva da verdade, e que dezoito séculos não conseguiram pôr de acordo. Esquecendo o mais importante nos preceitos divinos, aquele de que Jesus havia feito a pedra angular do seu edifício e a condição expressa da salvação: a caridade, a fraternidade e o amor ao próximo, essas seitas se anatematizaram reciprocamente, arremeteram-se umas contra as outras, as mais fortes esmagando as mais fracas, afogando-as em sangue, ou nas torturas e nas chamas das fogueiras. Os cristãos, vencedores do Paganismo, passaram de perseguidos a perseguidores. Foi a ferro e fogo que plantaram a cruz do cordeiro sem mácula nos dois mundos. É um facto comprovado que as guerras de religião foram mais cruéis e fizeram um maior número de vitimas do que as guerras políticas, e que em nenhuma outra se cometeram tantos actos de atrocidade e de barbárie.
Seria a culpa da doutrina do Cristo? Não por certo, pois ela condena formalmente toda a violência. (...) [Cristo] disse aos seus discípulos: Todos os homens são irmãos, e Deus é soberanamente misericordioso; amai o vosso próximo; amai os vossos inimigos; fazei bem aos que vos perseguem. E lhes disse ainda: quem matar com a espada perecerá pela espada. A responsabilidade, portanto, não é da doutrina de Jesus, mas daqueles que a interpretaram falsamente, transformando-a num instrumento ao serviço das suas paixões. Daqueles que ignoraram estas palavras: o meu Reino não é deste mundo.
Jesus, na sua profunda sabedoria, previu o que devia acontecer. Mas, essas coisas, eram inevitáveis porque decorriam da própria inferioridade da natureza humana, que não podia ser transformada subitamente. Era necessário que o Cristianismo passasse por essa prova demorada e cruel, de dezoito séculos, para demonstrar toda a sua pujança: porque, apesar de todo o mal cometido em seu nome, ele saiu dela puro, e jamais esteve em causa. A censura sempre caiu sobre os que dela abusaram, pois a cada acto de intolerância sempre se disse: Se o Cristianismo fosse melhor compreendido e melhor praticado, isso não teria acontecido.
Quando Jesus disse: Não penseis que vim trazer a paz, mas a divisão - o seu pensamento era o seguinte:
"Não penseis que a minha doutrina se estabeleça pacificamente. Ela trará lutas sangrentas, para as quais o meu nome servirá de pretexto. Porque os homens não me haverão compreendido, ou não terão querido compreender-me. Os irmãos, separados pelas suas crenças, lançarão a espada um contra o outro, e a divisão se fará entre os membros de uma mesma família, que não terão a mesma fé. Vim lançar o fogo na terra, para consumir os erros e os preconceitos, como se põe fogo num campo para destruir as ervas daninhas, e anseio que se acenda, para que a depuração se faça mais rapidamente, pois dela sairá triunfante a verdade. À guerra sucederá a paz; ao ódio dos partidos a fraternidade universal; às trevas do fanatismo, a luz da fé esclarecida.
Então, quando o campo estiver preparado, eu vos enviarei o Consolador, o Espírito da Verdade, que virá restabelecer todas as coisas, ou seja, ao dar a conhecer o verdadeiro sentido das minhas palavras, que os homens mais esclarecidos poderão enfim compreender, porá termo à luta fratricida que divide os filhos de um mesmo Deus. Cansados, afinal, de um combate sem solução, que só acarreta desolação, e leva o distúrbio até mesmo ao seio das famílias, os homens reconhecerão onde se encontram os seus verdadeiros interesses, no tocante a este e ao outro mundo, e verão de que lado se encontram os amigos e os inimigos da sua tranquilidade. Nesse momento, todos virão abrigar-se sob a mesma bandeira: a da caridade, e as coisas serão restabelecidas na Terra, segundo a verdade e os princípios que vos ensinei."
(In: Kardec, Allan - O Evangelho segundo o Espiritismo)

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