sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Há Espíritos? (II)

continuação de: Há Espíritos (I)

Como a doutrina da localização das almas não podia conciliar-se com os dados da Ciência, outra doutrina mais lógica atribuiu-lhes o domínio, não de um lugar determinado e circunscrito, mas do espaço universal; há todo um mundo invisível, no meio do qual vivemos, que nos rodeia e toca constantemente. Haverá nisto alguma impossibilidade, alguma coisa que repugne à razão? De maneira nenhuma; pelo contrário, tudo nos diz que só pode ser assim. Mas então, em que é que se tornam as penas e recompensas futuras, se lhes tiraram os lugares especiais onde se efectivavam? Relativamente às penas e recompensas notai que a incredulidade é geralmente provocada pelo facto destas mesmas penas e recompensas serem apresentadas numas condições inadmissíveis.
Em vez disso, dizei que as almas extraiem delas próprias a felicidade ou a infelicidade, que o seu destino está subordinado à sua condição moral; que a reunião de almas simpáticas e boas, é uma fonte de felicidade e que, conforme o seu grau de depuração, penetram e entrevêem coisas que não são vistas pelas almas grosseiras - e toda a gente vai compreender sem dificuldade. Dizei mais: que as almas não atingem o supremo grau, a não ser pelos esforços que façam para se melhorarem e só depois de passarem por uma série  de provas que servem para a sua depuração; que os anjos são almas que chegaram a esse último grau, que todos podemos atingir se tivermos boa vontade; que os anjos são os mensageiros de Deus encarregados de velar pela execução dos seus desígnios em todo o universo e que se sentem felizes com estas missões gloriosas - e deste modo dareis à sua felicidade um propósito mais útil e atraente do que o da perpétua contemplação, que não seria senão uma perpétua inutilidade. Finalmente dizei, que os demónios são apenas as almas dos maus que ainda não estão depuradas mas que podem ascender, tal como as outras, e isto estará mais de acordo com a justiça e a bondade de Deus, do que a doutrina de seres criados para o mal e perpetuamente devotados ao mal.
Mais uma vez, eis aqui o que pode ser admitido pela mais severa razão e pela mais rigorosa lógica, isto é, pelo bom senso.
Ora, estas almas que povoam o espaço são precisamente aquilo a que se chamam Espíritos. Portanto, os Espíritos são apenas as almas dos homens, despidas do seu invólucro corporal. Se fossem seres à parte, a sua existência seria mais hipotética; mas, se se admitir que há almas, é preciso também admitir que há Espíritos, que são simplesmente as almas. E se se admite que as almas estão em toda a parte, é preciso admitir igualmente que os Espíritos também o estão. Portanto, não se pode negar a existência dos Espíritos, sem se negar a da almas.




Extraído de: KARDEC, Allan - O Livro dos Médiuns. Cap.I. 1ª ed. Algés: Verdade e Luz Editora Espírta, 2010.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Há espíritos? (I)

1. A dúvida sobre a existência dos Espíritos, tem como causa principal a ignorância sobre a sua verdadeira natureza. Geralmente são representados como seres à parte da criação e cuja necessidade não está demonstrada. Muitas pessoas não os conhecem senão pelos contos fantásticos com que foram embaladas na infãncia, mais ou menos como as que só conhecem a história pelos romances. Sem averiguarem se esses contos, despidos dos seus ridículos acessórios, contêm algum fundo de verdade, só se deixam impressionar pelo seu lado absurdo; não se dando ao trabalho de tirarem a casca amarga para descobrirem a amêndoa, rejeitam o todo, como fazem, na religião, aqueles que, chocados com certos abusos, metem tudo na mesma reprovação.
 Seja qual for a ideia que se faça dos Espíritos, acreditar-se neles tem forçosamente por base, a existência de um princípio inteligente fora da matéria; esta crença é incompatível com a negação absoluta deste princípio. Por conseguinte tomamos como ponto de partida a existência, a sobrevivência e a individualidade da alma, de que o Espiritualismo é a demonstração teórica e dogmática, e o Espiritismo a demonstração evidente.

2. Se se admitir a existência da alma e a sua individualidade após a morte, tem que se admitir também:
    1º Que tem uma natureza diferente da do corpo, visto que quando está separada deste deixa de ter as propriedades que lhe são inerentes;
     2º Que tem consciência de si própria, pois é passível de alegria ou de sofrimento; de outra maneira, seria um ser inerte e de nada nos serviria possuí-la.
Admitindo isto, esta alma vai para algum sítio: em que é que se transforma e para onde vai? Segundo a crença vulgar, vai para o céu ou para o inferno; mas onde ficam o céu e o inferno? Antigamente, dizia-se que o céu era em cima e o inferno em baixo. Mas o que são o alto e o baixo no universo, desde que se sabe que a Terra é redonda; que o movimento dos astros faz com que aquilo que é o alto num dado momento passe a ser o baixo doze horas depois; que o espaço é infinito e que o olhar nele mergulha até distâncias incumensuráveis? 
(...)Em que ficou a importância da Terra, mergulhada nesta imensidão? Por que privilégio injustificável é que este impercetível grão de areia que não se distingue nem pelo volume, nem pela posição, nem por qualquer papel especial, seria o único planeta povoado por seres racionais? A razão recusa-se a admitir a inutilidade do infinito e tudo nos diz que estes mundos são habitados. E, se são povoados, então fornecem o seu próprio contingente de seres para o mundo das almas. Mas, mais uma vez, no que é que se tornam estas almas, visto que a astronomia e a geologia destruiram as moradias que lhes estavam destinadas, sobretudo desde que a extremamente racional teoria da pluralidade dos mundos as multiplicou infinitamente?

continua em: Há Espíritos? (II)


Extraído de: KARDEC, Allan - O Livro dos Médiuns. Cap.I. 1ª ed. Algés: Verdade e Luz Editora Espírta, 2010.