Tendo aparecido numa época de emancipação e madureza intelectual, em que o homem queria saber o porquê e o como de cada coisa, o Espiritismo surgiu não só, através de um ensino directo, mas também como fruto do trabalho da pesquisa e do livre exame, deixando ao homem o direito de submeter tudo ao cadinho da razão. (1)
Pelo método aplicado na observação dos factos, pelas respostas que oferece às profundas indagações do espírito humano, com reflexos inevitáveis no modo de proceder das criaturas, salienta-se que o Espiritismo é uma doutrina de tríplice aspecto: científico, filosófico e moral.
No livro O que é o Espiritismo, Allan Kardec diz-nos que “o Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.”(2)
Os fenómenos mediúnicos, tão antigos quanto o ser humano na face da Terra, sempre chamaram a atenção para a realidade da vida espiritual. Todavia, foram sempre revestidos pelo carácter do maravilhoso e do sobrenatural, tão ao gosto das religiões primitivas e das tradicionais. De outras vezes, as manifestações dos espíritos eram explicadas como obra demoníaca, por princípios religiosos que persistem até hoje, desencorajando, e mesmo proibindo, através do poder religioso constituído, toda a pesquisa ou estudo que visasse esclarecer a causa dos referidos fenómenos. Foi necessário que o tempo passasse, que o homem amadurecesse e, como consequência, houvesse a libertação do conhecimento, para que a explicação racional desses factos pudesse ser encontrada.
No estudo dos fenómenos que concorreram para a elaboração do Espiritismo, Allan Kardec, da mesma forma que nas ciências positivas, aplicou o método experimental (indutivo). Não criou nenhuma teoria preconcebida e nem apresentou a priori como hipótese a existência e a intervenção dos espíritos, concluindo pela existência destes, quando ela foi evidenciada pela observação dos factos. “Não foram os factos que vieram a posteriori confirmar a teoria; a teoria é que veio subsequentemente explicar e reunir os factos.” (1)
Foi a partir dos fenómenos das mesas girantes que Allan Kardec iniciou a sua pesquisa, em busca da explicação para esse facto tão singular e de tantos outros compreendidos na fenomenologia mediúnica.
Nascia, assim, uma nova ciência que viria romper os vínculos de quaisquer resíduos mágicos e superstição, demonstrando a existência do princípio espiritual, as propriedades dos fluidos espirituais e a acção deles sobre a matéria.
Demonstrou a existência do perispírito - ou corpo espiritual - assinalado por diversos pensadores em várias épocas, reconhecendo nele o corpo fluídico da alma, mesmo depois da destruição do corpo físico. Esse invólucro é inseparável da alma, um dos elementos constitutivos do ser humano e o veículo de transmissão do pensamento. Serve de laço entre o espírito e a matéria.(1)
A parte experimental do Espiritismo está contida em O Livro dos Médiuns, editado em 1861, que, segundo Allan Kardec na apresentação da referida obra, “contém o ensino especial dos espíritos sobre a teoria de todos os géneros de manifestações, os meios de comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as dificuldades e os escolhos que se podem encontrar na prática do Espiritismo”. (3)
Nessa obra, Kardec dá ênfase ao perispírito, elemento indispensável para a explicação da mediunidade e faz, também, um relato da evolução dos processos de comunicação com os espíritos, desde as mesas girantes até à psicografia, ou seja, a escrita através da mão do médium.
O Espiritismo, enquanto ciência, tem o seu objecto e o seu método.
O seu objecto centra-se nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos.
É uma ciência de observação.
O método científico, como é ensinado nas escolas, decompõe-se em várias fases:
1. Observação;
2. Formulação de hipóteses explicativas do fenómeno;
3. Segue-se a fase em que se testa experimentalmente a hipótese tida como reveladora
do mecanismo do fenómeno;
4. Enunciação da lei.
Quem estuda a história da codificação do Espiritismo, vai encontrar este percurso a ser percorrido por Kardec. Evidentemente que este tipo de fenómenos não é tão simples de pesquisar como uma experiência química processada em laboratório. Há que fazer adaptações. Os espíritos são pessoas sem corpo físico que têm a sua vontade própria e podem não estar dispostos a tentar as experiências que os experimentadores pretendem fazer. A isto acresce a necessidade de se verificar todo um conjunto complexo de circunstâncias físicas, psicológicas e outras, para que o fenómeno possa ocorrer.
BIBLIOGRAFIA
1. Allan Kardec, A Génese, Cap. I, n.º 12 a 14 e 39, 13.ª Edição, Federação Espírita Brasileira
2. Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Preâmbulo, 11.ª Edição, 1955, Federação Espírita
Brasileira
3. Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, Frontispício, 30.ª Edição, Federação Espírita Brasileira
1. Allan Kardec, A Génese, Cap. I, n.º 12 a 14 e 39, 13.ª Edição, Federação Espírita Brasileira
2. Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Preâmbulo, 11.ª Edição, 1955, Federação Espírita
Brasileira
3. Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, Frontispício, 30.ª Edição, Federação Espírita Brasileira