terça-feira, 31 de maio de 2011

Espiritismo: ciência e doutrina filosófica

Tendo aparecido numa época de emancipação e madureza intelectual, em que o homem queria saber o porquê e o como de cada coisa, o Espiritismo surgiu não só, através de um ensino directo, mas também como fruto do trabalho da pesquisa e do livre exame, deixando ao homem o direito de submeter tudo ao cadinho da razão. (1)

Pelo método aplicado na observação dos factos, pelas respostas que oferece às profundas indagações do espírito humano, com reflexos inevitáveis no modo de proceder das criaturas,  salienta-se que o Espiritismo é uma doutrina de tríplice aspecto: científico, filosófico e moral.

No livro O que é o Espiritismo, Allan Kardec diz-nos que “o Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.”(2)

Os fenómenos mediúnicos, tão antigos quanto o ser humano na face da Terra, sempre chamaram a atenção para a realidade da vida espiritual. Todavia, foram sempre revestidos pelo carácter do maravilhoso e do sobrenatural, tão ao gosto das religiões primitivas e das tradicionais. De outras vezes, as manifestações dos espíritos eram explicadas como obra demoníaca, por princípios religiosos que persistem até hoje, desencorajando, e mesmo proibindo, através do poder religioso constituído, toda a pesquisa ou estudo que visasse esclarecer a causa dos referidos fenómenos. Foi necessário que o tempo passasse, que o homem amadurecesse e, como consequência, houvesse a libertação do conhecimento, para que a explicação racional desses factos pudesse ser encontrada.

No estudo dos fenómenos que concorreram para a elaboração do Espiritismo, Allan Kardec, da mesma forma que nas ciências positivas, aplicou o método experimental (indutivo). Não criou nenhuma teoria preconcebida e nem apresentou a priori como hipótese a existência e a intervenção dos espíritos, concluindo pela existência destes, quando ela foi evidenciada pela observação dos factos. “Não foram os factos que vieram a posteriori confirmar a teoria; a teoria é que veio subsequentemente explicar e reunir os factos.” (1)
Foi a partir dos fenómenos das mesas girantes que Allan Kardec iniciou a sua pesquisa, em busca da explicação para esse facto tão singular e de tantos outros compreendidos na fenomenologia mediúnica.

Nascia, assim, uma nova ciência que viria romper os vínculos de quaisquer resíduos mágicos e superstição, demonstrando a existência do princípio espiritual, as propriedades dos fluidos espirituais e a acção deles sobre a matéria.

Demonstrou a existência do perispírito - ou corpo espiritual - assinalado por diversos pensadores em várias épocas, reconhecendo nele o corpo fluídico da alma, mesmo depois da destruição do corpo físico. Esse invólucro é inseparável da alma, um dos elementos constitutivos do ser humano e o veículo de transmissão do pensamento. Serve de laço entre o espírito e a matéria.(1)

A parte experimental do Espiritismo está contida em O Livro dos Médiuns, editado em 1861, que, segundo Allan Kardec na apresentação da referida obra, “contém o ensino especial dos espíritos sobre a teoria de todos os géneros de manifestações, os meios de comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as dificuldades e os escolhos que se podem encontrar na prática do Espiritismo”. (3)
Nessa obra, Kardec dá ênfase ao perispírito, elemento indispensável para a explicação da mediunidade e faz, também, um relato da evolução dos processos de comunicação com os espíritos, desde as mesas girantes até à psicografia, ou seja, a escrita através da mão do médium.

O Espiritismo, enquanto ciência, tem o seu objecto e o seu método.

O seu objecto centra-se nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos.
É uma ciência de observação.

O método científico, como é ensinado nas escolas, decompõe-se em várias fases:
1. Observação;
2. Formulação de hipóteses explicativas do fenómeno;
3. Segue-se a fase em que se testa experimentalmente a hipótese tida como reveladora
do mecanismo do fenómeno;
4. Enunciação da lei.

Quem estuda a história da codificação do Espiritismo, vai encontrar este percurso a ser percorrido por Kardec. Evidentemente que este tipo de fenómenos não é tão simples de pesquisar como uma experiência química processada em laboratório. Há que fazer adaptações. Os espíritos são pessoas sem corpo físico que têm a sua vontade própria e podem não estar dispostos a tentar as experiências que os  experimentadores pretendem fazer. A isto acresce a necessidade de se verificar todo um conjunto complexo de circunstâncias físicas, psicológicas e outras, para que o fenómeno possa ocorrer.

BIBLIOGRAFIA
1. Allan Kardec, A Génese, Cap. I, n.º 12 a 14 e 39, 13.ª Edição, Federação Espírita Brasileira
2. Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Preâmbulo, 11.ª Edição, 1955, Federação Espírita
Brasileira
3. Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, Frontispício, 30.ª Edição, Federação Espírita Brasileira

sábado, 28 de maio de 2011

Tensão emocional e Felicidade terrena... "a dor da alma doi no corpo"

  A questão 922 do Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, refere-se à forma de alcançar a felicidade terrena, nos seguintes termos:
"Para a vida material, a posse do necessário; para a vida moral, a consciência pura e a fé no futuro"

 Um amigo meu, Orson Peter Carrara, numa entrevista dada a um canal de TV brasileiro, referia-se a certa altura a esta questão, de uma maneira muito sugestiva. Dizia ele que ela se pode traduzir numa equação matemática, da seguinte forma:
                                                
                                                                    F = PN + CT + FF

sendo
           F = Felicidade
           PN = Posse do Necessário
           CT = Consciência Tranquila
           FF = Fé no Futuro

Nessa entrevista Orson fala de "Tensão emocional", livro que escreveu inspirado numa mensagem do mesmo nome, enviada pelo Espírito Emmanuel a Chico Xavier*.


 A tensão emocional de que fala Orson P. Carrara é a causa dos desajustes emocionais. Estes estão na origem do aparecimento de doenças. "Ficar triste, ficar com raiva, ficar com medo, é normal, é humano. O grande problema está na manutenção desses sentimentos, porque esses sentimentos nos desajustam psiquicamente. Quando nos deixamos entristecer, abater, por dias seguidos, nós vamos baixando o nosso sistema imunológico e ficamos expostos aos vírus, bactérias, infecções, contágios. O desajuste da emoção provoca as doenças no corpo. Já é conhecido que a mágoa guardada é uma das causas dos tumores cancerígenos. A psicologia já trabalha com essas ideias, a medicina. O Evangelho recomenda o perdão. O não perdoar acorrenta-nos, amordaça-nos. Quem perdoa liberta-se, quem não perdoa fica preso aos pensamentos que molestam o corpo.
As adversidades da vida que causam as tensões, elas têm a função de fazer com que a gente amadureça. Então elas são úteis porque nos fazem crescer intelectual e emocionalmente. O grande detalhe está em saber administrar esses conflitos. A nossa imaturidade provoca o desespero, os ímpetos agressivos. Existem tensões que permanecem pelo tempo, por décadas, provenientes dos medos, do ciúme, da inveja, do rancor, do desejo de vingança, da mágoa guardada. Isto, se alimentado e guardado, gera doenças.

Emmanuel convida-nos a uma mudança de comportamento mental:

- viver com alegria;
- agir na senda do bem;
- esquecer ressentimentos;
- viver a vida de forma construtiva;
- trabalhar com alegria;
- não temer, confiar na vida...

Esta mudança de postura ajuda-nos a modificar o nosso panorama mental. A "prisão" a esses conceitos de desajustes é que nos maltrata. Ficamos doentes porque somos teimosos, precipitados, porque não confiamos.
Emmanuel veio dizer-nos que se aceitarmos a existência de Deus, preservamo-nos contra tais desajustes.
Por que nos esquecemos que somos filhos de Deus, ficamos com medo, entramos em desespero, desestabilizamos o equilíbrio que precisamos para viver.
Aceitar a vida como ela é, é um grande segredo para viver com harmonia. E é aqui que devemos aplicar a tal equação de que fala Orson, referindo-se à indicação sobre a felicidade terrena, transcrita no Livro dos Espíritos.
A consciência tranquila remete o individuo para uma felicidade real: a juventude passa num instante, o dinheiro muda de mão e a saúde também vai diminuindo com o tempo. A única coisa que permanece é a paz de consciência, que resulta de uma vida vivida com dignidade, com decência, com honestidade e com uma alta dose de motivação, como nos sugere Emmanuel.
Precisamos aprender a não ser demasiado exigentes connosco e com os outros, não colocar uma expectativa que não vai poder ser correspondida e aprender a compreender o outro. O outro e as diversas situações: eu posso não concordar com o outro, mas eu posso tentar compreendê-lo. Que autoridade ou competências temos nós para exigir transformações nos outros? Cada criatura é um universo em si, com as suas bagagens, com as suas experiências, apresentando reacções próprias resultantes das experiências que vivenciou nesta ou em outras encarnações.
Emmanuel vai construindo esse raciocínio de aceitação da vida, de uso da paciência diante das adversidades, utilizando-as como degraus de crescimento para que a gente aprenda a administrar esses conflitos interiores e viva com mais serenidade."
Emmanuel fala também da necessidade de repouso, não entendido como o tédio, o ficar em frente da televisão ou computador, um domingo inteiro. A mente fica vazia de ideias e não há nada mais propício para a "entrada" de ideias derrotistas, pessimistas, intrigantes, que vão minando a nossa serenidade.
Emmanuel ensina-nos a ter coragem para ser diferentes. Incentiva-nos ao exercício diário de aprendizagem para alcançar a paz de espírito que mudará, para melhor, a nossa maneira de ser e de estar na vida.

.
*Esta mensagem e outras mais do Espírito Emmanuel encontra-se no livro intitulado Companheiro, editada pelo Grupo Espírita Mensageiros, de São Paulo.

*Veja também o livro "Tensão emocional" de Orson Peter Carrara

Invictus

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

Autor: William E Henley
Tradutor: André C S Masini

(a seguir, versão original da poesia) 

 

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate;
I am the captain of my soul.

 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Amizade verdadeira

Pela Amizade que tu me devotas,
Por meus defeitos que tu nem notas...
Por meus valores que tu aumentas,
Por minha Fé que tu alimentas...
Por esta Paz que nos transmitimos,
Por este Pão de Amor que repartimos...
Pelo silêncio que diz quase tudo,
Por este olhar que me reprova mudo...
Pela Pureza de teus sentimentos,
Pela presença em todos os momentos...
Por ser Presente, mesmo quando ausente,
Por ser Feliz quando me vê contente...
Por ficar triste quando estou tristonho,
Por rir comigo quando estou risonho...
Por repreender-me quando estou errado,
Por meu segredo sempre bem guardado...
Por me apontares para Deus a todo o instante,
Por este Amor fraterno sempre tão constante...
Por tudo isto eu digo:
"Deus te abençoe meu Querido Amigo!"

(Lourival Silveira - Presidente Prudente - São Paulo - Brasil)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Bridge Over Troubled Water

When you're weary
Feeling small
When tears are in your eyes
I will dry them all

I'm on your side
When times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down

When you're down and out
When you're on the street
When evening falls so hard
I will comfort you

I'll take your part
When darkness comes
And pain is all around
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind

Sail on Silver Girl,
Sail on by
Your time has come to shine
All your dreams are on their way

See how they shine
If you need a friend
I'm sailing right behind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A distância não é impedimento...

Por onde andam os amores que não mais estão aqui connosco?

Se aprendemos que o amor une ao invés de afastar, por que crer na distância da morte?

Sim, a morte não nos separa. Talvez um breve afastamento físico, mas nunca o afastamento das almas.

Os que nos amam continuam ao nosso lado, e se partiram antes, quase sempre se tornam companheiros anónimos e invisíveis dos nossos dias.

São eles, muitas vezes, que nos trazem as forças que precisamos para continuar, o carinho dos bons conselhos ou os puxões de orelha amorosos.

Em espírito nos acompanham, oram e vibram por nós, da mesma forma que fariam se estivessem ainda encarnados.

A morte não muda o amor. A distância não é impedimento para o carinho.

Eles estão mais perto do que imaginamos, e neste grande ir e vir do planeta, logo mais estaremos juntos uma vez mais.

Estaremos juntos lá, pois nunca sabemos quanto tempo ainda temos, ou mesmo aqui, lembrando que a reencarnação é uma das Leis maiores do Universo.
 

 

domingo, 1 de maio de 2011

O Consolador

As grandes verdades da Espiritualidade Superior, sempre que são reveladas a uma certa população, sofrem de um efeito rotineiro: podemos chamar-lhe recuo evolutivo.
Na verdade, segundo a lei do progresso, nenhuma conquista do espírito, uma vez adquirida, se perde. Daí o itálico.
O recuo evolutivo deriva da média evolutiva de uma população determinada que, quando as verdades reveladas estão um tanto mais adiante da sua mentalidade, imiscui nessas novas ideias a sua ganga, as suas imperfeições, de tal forma que da verdade original resulta uma meia verdade.
Aconteceu com o Cristianismo e, provavelmente, acontece já com o Espiritismo. Será, talvez, a única forma de essas populações se associarem à revelação sem se afastarem totalmente dela. Em termos numéricos é uma meia perda e não uma perda inteira. Do mesmo modo não é uma conquista ou um passo adiante de forma plena, mas sim uma meia conquista ou um meio passo em frente.
Quando Jesus, no Evangelho, fala do Consolador ou Paracleto, dominava já muito melhor do que nós hoje, esse fenómeno do recuo evolutivo. Por isso disse que enviaria mais tarde o Consolador, que lembraria os ensinos Dele e adiantaria mais algumas ideias que na época seria inútil referir.
Surge, então, o Espiritismo e, como Allan Kardec define, reúne as características do tal Consolador. Deste modo, podemos afirmar que o Consolador é tudo o que nos é transmitido na Doutrina Espírita.
O Espiritismo, no dizer do próprio Allan Kardec, "é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações." Este será o tema da próxima mensagem.