Sejam quais forem os prodígios realizados pela inteligência humana, esta inteligência tem também uma causa primária. É a inteligência superior a causa primária de todas as coisas, qualquer que seja o nome pelo qual o homem a designe. (Allan Kardec)
Publicado em Paris a 18 de Abril de 1857, O Livro dos Espíritos é o marco inicial de uma nova fase da evolução humana. O Espiritismo baseia-se na solidez deste livro, na credibilidade e sabedoria de suas fontes espirituais, na pureza de sua moral evangélica, nos meios de transmissão mediúnica e na coerência de suas revelações.
A característica essencial de qualquer revelação tem que ser a verdade. Revelar um segredo é tornar conhecido um facto. Se é falso, já não é um facto e, portanto, não existe revelação.
Todas as ciências que nos fazem conhecer os mistérios da Natureza são revelações, e pode dizer-se que há para a humanidade uma revelação incessante. A Astronomia revelou o mundo dos astros que não conhecíamos. A Geologia revelou a formação da Terra. A Química revelou a lei das afinidades entre as substâncias. A Fisiologia revelou as funções do organismo. Copérnico, Newton, Galileu, Laplace e Lavoisier foram reveladores.
O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo espiritual que nos cerca e, por conseguinte, o nosso destino depois da morte, é uma verdadeira revelação na acepção científica da palavra. A revelação espírita é de origem divina e de iniciativa dos espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho humano.
Obedecendo a uma sequência histórica, a primeira revelação divina teve sua personificação em Moisés, a segunda no Cristo. A terceira não a tem num só indivíduo. Aí está um carácter essencial de grande importância. A revelação espírita, ou terceira revelação, é colectiva no sentido de não ter sido dada como privilégio a pessoa alguma. Foi espalhada, simultaneamente, por sobre a Terra a milhões de seres humanos de todas as idades e condições.
As revelações de Moisés e de Cristo, sendo resultado do ensino pessoal, apareceram num só ponto em torno do qual a ideia se propagou, pouco a pouco. Mas foram precisos muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem mesmo o cobrirem inteiramente.
A revelação espírita, não estando personificada em um só indivíduo, surgiu simultaneamente em milhares de pontos diferentes, que se tornaram centros ou focos de irradiação. Se o Cristo não disse tudo quanto poderia dizer, é que julgou conveniente deixar certas verdades veladas, até que os homens chegassem ao estado de compreendê-las.
Mas quem toma a liberdade de interpretar as Escrituras Sagradas? Quem tem esse direito?
Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, esse direito pertence a todos: cientistas, religiosos, filósofos e pesquisadores. Os homens, cada vez mais esclarecidos, há medida que novos factos e novas leis se forem revelando, saberão separar da realidade os sistemas utópicos. Ora, as ciências tornam conhecidas algumas leis; o Espiritismo revela outras. Todas são indispensáveis à inteligência dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda, até ao Cristianismo.
O último carácter da revelação espirita é que, apoiando-se em factos, tem que ser e não pode deixar de ser essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Caminhando a par do progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.
Hoje, mais de cem anos depois da publicação de O Livro dos Espíritos, nenhum dos princípios fundamentais do Espiritismo foi abalado. Todos permanecem intactos, e isso num século em que o mundo sofreu transformações radicais em todos os campos do conhecimento. O que se pode observar é que o desenvolvimento da ciência se processa, justamente, na direcção dos princípios espíritas. O exemplo mais recente vem expresso nos jornais. Depois do átomo e de todas as suas subdivisões, os cientistas acabam de dar mais um passo no estudo do microcosmo, agora com a descoberta oficial do Top Quark, a partícula mais fundamental da matéria. Esta conquista científica que ajudará a entender planetas, estrelas e galáxias e a própria vida, vem confirmar ensinamentos que já nos haviam sido antecipados pelo capítulo 2º de O Livro dos Espíritos, sobre os elementos gerais do universo e as propriedades da matéria.
Além de O Livro dos Espíritos, outras obras básicas compõem a codificação espírita: o Livro dos Médiuns, o Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o inferno e a Génese desenvolvem, aprofundam e consolidam os princípios do Espiritismo. Todos esses princípios, que resultam dos ensinamentos dos espíritos, foram sistematizados e codificados por Allan Kardec.
Hipollyte Léon Denizard Rivail que mais tarde viria a adoptar o pseudónimo de Allan Kardec, nasceu na cidade de Lyon, na França, no dia 3 de Outubro de 1804. Com a idade de 10 anos seus pais o enviaram para estudar em Yverdun, na Suiça, onde se localizava um dos institutos de ensino mais famosos e respeitados em toda a Europa. Fundado pelo educador suíço Johann Pestalozzi, o Instituto era uma espécie de escola modelo admirado pela aristocracia, altas personalidades políticas, científicas, literárias e filantrópicas. Depois de haver concluído os seus estudos em Yverdun, Rivail tornou-se conceituado mestre, não só em letras como em ciências, distinguindo-se, também, como notável pedagogo. Publicou diversos livros didácticos e contribuiu com planos e métodos para a reforma do ensino francês. Esta longa experiência pedagógica habilitou o professor Rivail para outra tarefa: a codificação do Espiritismo.
Aos 65 anos incompletos, vitimado por um aneurisma, Allan Kardec faleceu em sua casa enquanto trabalhava.
31 de Março de 1848 - em Hydesville, nos Estados Unidos da América, manifestações de forças inteligentes intervindo no plano físico assinalam o surgimento do Espiritismo, através da fenomenologia mediúnica. A seriedade desses acontecimentos teve imensa repercussão, até mesmo na Europa. Os fenómenos ocorreram numa tosca cabana, residência da família Fox, adeptos da Igreja Metodista.
No primeiro diálogo registado entre as irmãs Fox e o espírito de nome Charles Rosma, usaram-se letras do alfabeto para a formação de palavras, mediante a convenção de que a cada letra corresponderia um determinado número de pancadas. Estava, portanto, descoberto o processo adoptado para as comunicações entre os dois mundos. Pode-se dizer que o fenómeno das mesas girantes, que se seguiu aos acontecimentos de Hydesville, preparou o advento do Espiritismo, despertando o interesse dos Homens de ciência, dentre eles o Professor Rivail, ou Allan Kardec.
"Foi em 1854 que, pela primeira vez, ouvi falar das mesas girantes. Encontrei um dia o magnetizador, senhor Fortier, que conhecia há muito tempo. Disse-me ele que já não eram somente as pessoas que podiam magnetizar-se, mas também as mesas, conseguindo-se que elas caminhassem e girassem à vontade. O facto não me pareceu radicalmente impossível. O fluido magnético, que é uma espécie de electricidade, pode perfeitamente actuar sobre corpos inertes e fazer com que eles se movam.
Algum tempo depois, encontrei-me novamente com o senhor Fortier que me disse ter um facto muito mais extraordinário: a mesa não só se movia, como também falava. Interrogada, ela respondia através de sinais. Eu estava, pois, diante de um facto inexplicado, aparentemente contrário às leis da Natureza, e que a minha razão repelia. Sabia apenas que as experiências eram realizadas na presença de pessoas honradas e dignas de fé.
No ano seguinte o senhor Carlotti, amigo há 25 anos, falou-me dos mesmos fenómenos com entusiasmo. Foi ele o primeiro a mencionar-me a intervenção dos espíritos. Ele contou-me tantas coisas surpreendentes que, longe de me convencer, aumentou-me as dúvidas. Tempos depois fui convidado a assistir às experiências que se realizavam em casa da senhora Plainemaison. Foi aí que, pela primeira vez, presenciei o fenómeno das mesas que giravam, saltavam e corriam. Assisti, então, a alguns ensaios muito imperfeitos da escrita mediúnica. Sem dúvida, havia ali um facto que, necessariamente, decorria de uma causa.
Foi nessas reuniões que comecei os meus estudos sérios de Espiritismo, menos ainda por meio de revelações do que de observações. Apliquei a essa nova ciência, como o fizera até então, o método experimental. Nunca elaborei teorias pré-concebidas. Observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências. Dos efeitos procurava remontar às causas por dedução e pelo encadeamento lógico dos factos.
Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os espíritos, nada mais sendo do que a alma dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral. O saber de que dispunham limitava-se ao grau que haviam alcançado de adiantamento. A opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Esta constatação preservou-me de acreditar na infalibilidade dos espíritos e impediu-me de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por alguns deles. O simples facto da comunicação com os espíritos, dissessem eles o que dissessem, provaria a existência de um mundo invisível ao ambiente. Já era um ponto essencial, um imenso campo aberto às nossas explorações.
O segundo ponto, não menos importante, é que aquela comunicação permitia que se conhecesse o estado desse mundo, os seus costumes, se assim podemos exprimir-nos.
No ano seguinte, em 1856, passei a frequentar também as reuniões espíritas que se celebravam em casa do senhor Gustain. Eram sérias essas reuniões e realizavam-se com ordem. As perguntas fúteis haviam perdido todo o atractivo para a maioria das pessoas. Quanto a mim, ía obtendo a resolução dos problemas que me interessavam do ponto de vista da Filosofia, da Psicologia e da natureza do mundo invisível. Levava para cada sessão uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas. Pouco a pouco, as sessões íam assumindo carácter muito diverso. Entre os assistentes contavam-se físicos, matemáticos, estudiosos, cientistas das mais diferentes áreas do conhecimento humano, todos formulando perguntas, aprofundando temas e questões. Mais tarde, quando vi que aquilo constituía um todo, e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a ideia de publicar os ensinos recebidos. O meu trabalho, em grande parte, já estava concluído, e tinha as proporções de um livro. Mas eu fazia questão de submetê-lo ao exame de outros espíritos com auxílio de diferentes médiuns. Mais de dez médiuns participaram do trabalho. Da comparação e da fusão de todas as respostas coordenadas, classificadas e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação foi que eu organizei a primeira edição de O Livro dos Espíritos."
O Livro dos Espíritos foi elaborado através do diálogo, uma das formas mais livres e ricas da tradição filosófica. Hegel definiu a estrutura do diálogo em tese, antítese e síntese. Marx e Engels deram a ele o sentido materialista e revolucionário. Em vez de enfatizar as contradições, os conflitos e as lutas dos opostos, a dialéctica espírita prefere a compreensão, a união dos contrários, o impendimento que conduz ao progresso. Pela primeira vez surge uma comunicação como esta. O mundo do desconhecido vai-se revelando ao ser humano, que passa a poder avaliar, de modo objectivo e racional, o sentido maior de sua existência terrena, a importância do cumprimento das responsabilidades assumidas, a finalidade do aprendizado individual e colectivo, para o aperfeiçoamento de todos e de cada um, sem excepção.
A fé inabalável é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade. É aí que reside a principal força do Espiritismo, força que não fica apenas circunscrita ao plano filosófico, mas que também se estende aos planos científico e religioso. Científico porque o Espiritismo é uma ciência que demonstra experimentalmente a existência da alma e sua imortalidade. O diálogo ou intercâmbio mediúnico entre o mundo espiritual e o mundo corporal, vem abrir uma nova era nos estudos espirituais. Antes desse tipo de comunicação o conhecimento humano dividia-se radicalmente entre os mistérios divinos e a experiência terrena. A dialéctica espirita modifica essa ordem de coisas mostrando a possibilidade de tratarmos os temas espirituais através da mesma razão que aplicamos às questões materiais. Assim, O Livro dos Espíritos apresenta-se como um marco definitivo. Antes dele tínhamos o espiritualismo utópico. Com ele e depois dele, dentro dos ensinamentos da doutrina, temos o espiritualismo científico.
Não existe o sobrenatural senão para o desconhecimento humano das leis naturais. No plano religioso, o Espiritismo leva-nos a compreender o significado e verdadeira extensão da palavra Fé. O Espiritismo não tem cultos instituídos, nem igrejas, nem imagens, nem rituais, nem dogmas, nem mesmo hierarquia sacerdotal ou sacerdócio. Através dos ensinamentos espíritas pode-se fazer uma diferença entre religião propriamente dita e religiões no sentido de seitas humanas.
"Religião, para todos os homens, deveria compreender-se como sentimento divino que clarifica o caminho das almas e que cada espírito aprenderá na pauta do seu nível evolutivo. Porém, na inquietação que lhes caracteriza a existência na Terra, os homens dividiram-se em numerosas religiões como se a fé também pudesse ter fronteiras." (Chico Xavier)
Em vez do culto temos a prece que é o mais belo dos diálogos, o mais intimo, o mais simples e, ao mesmo tempo, o mais sublime. Pela prece sincera pensamos em Deus numa evocação de pedido, de agradecimento ou de glorificação.
A história da ideia de Deus mostra-nos que ela sempre foi relativa ao grau de intelectualidade dos povos e de seus legisladores. Na Antiguidade Júpiter empunhava o raio, Apolo conduzia o Sol, Neptuno senhoriava os mares. Mas, se de um lado a ignorância havia humanizado Deus, a Ciência confere-lhe dimensão mais inteligente e, portanto, mais próxima dos atributos da divindade.
Racionalmente não é possível admitir um efeito sem causa. Olhando o Universo imenso, a ordem e harmonia a que obedece a marcha dos mundos inumeráveis, olhando ainda o seio da Natureza, o Reino vegetal e os minerais, com suas admiráveis variedades, sondando também o mundo microscópico com incontáveis formas unicelulares, toda essa imensidão, profusão e beleza nos obriga a crer em Deus como causa necessária. O feto não pode conhecer a dimensão de quem lhe dará a luz, da mesma forma que o Homem é incapaz de perceber Deus na sua divina essência. Mesmo depois da morte, dispondo de faculdades perceptíveis, menos materiais, não pode ainda o espírito imperfeito perceber totalmente a natureza divina. Como o recém nascido, precisará crescer e evoluir para, aos poucos, adquirir entendimento. No estágio evolutivo em que se encontra é pelo sentimento, mais do que pelo raciocino, que o Homem pode compreender a existência de Deus.
Allan Kardec colocou, logo no início de O Livro dos Espíritos, um capítulo que trata exclusivamente de Deus. Com isso pretendeu significar que o Espiritismo tem na existência de Deus o seu princípio maior.
"Os seres que se manifestam designam-se a si mesmos pelo nome de espíritos e dizem, alguns pelo menos, que viveram como homens na Terra. Os principais ensinamentos que eles nos transmitiram:
Deus é eterno, imaterial, imutável, único, todo poderoso, soberanamente justo e bom. Este é o melhor conceito que a nossa limitada inteligência pode fazer Daquele que criou o Universo.
O Universo compreende todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais. Os seres materiais constituem o mundo visível ou corporal e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita. O mundo espírita é o mundo normal, primeiro, eterno. O mundo corporal é secundário. Poderia deixar de existir ou nunca ter existido, sem alterar a essência do mundo espírita. Os espíritos revestem temporariamente um invólucro material, perecível e a sua destruição pela morte nos devolve à liberdade. Entre as diferentes espécies de seres corporais Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos espíritos que chegaram a um certo grau de desenvolvimento. A alma é um espírito que encarnou e, portanto, um ser imaterial e individual que reside em nosso corpo e a ele sobrevive. Antes de se unir ao corpo, a alma é um dos seres inteligentes que povoam o mundo invisível. Ao revestir temporariamente o invólucro carnal, a alma adquire as condições materiais para se purificar e se esclarecer. A união da alma com o corpo começa na concepção, mas só se completa com o nascimento.
O Homem tem, assim, duas naturezas: pelo corpo participa da natureza dos animais dos quais possui os instintos; pelo mesmo princípio vital, pela alma participa da natureza dos espíritos. O perispírito é uma espécie de laço semi-material que une corpo e espírito. É preciso que seja assim para que os dois possam comunicar-se um com o outro. A morte é a destruição da parte mais grosseira. O espírito conserva o corpo etéreo, invisível para nós no seu estado normal, mas que ele pode tornar eventualmente visível e mesmo tangível, como se verifica nos fenómenos de aparição. O espírito não é, portanto, um ser abstracto que só o pensamento pode conceber. É um ser real e definido.
As diferentes reencarnações ou existências corpóreas do espírito são sempre progressivas e jamais regressivas. Mas a rapidez do seu progresso depende dos esforços que ele faça para chegar à perfeição. A vida terrena será, assim, uma espécie de escola em que os alunos, embora nunca regridam a séries anteriores, são obrigados a repetir o ano até compreenderem o que lhes foi ensinado. Sem as sucessivas provas das vidas corporais não haveria justiça, por isso todos contamos com muitas existências. O principal objectivo da reencarnação reside no melhoramento progressivo da humanidade."
A influência dos espíritos sobre os nossos pensamentos e actos é indiscutível. Pensar é vibrar, é entrar em relação com o universo espiritual que nos envolve. Conforme as emissões mentais de cada ser, os espíritos poderão colaborar com ele em seus esforços de progresso ou conduzi-lo à sua ruína. Nada mais natural que se consiga harmonia e felicidade quando a emissão mental for equilibrada e positiva ou infortúnio e aflições se o pensamento for desequilibrado e doentio.
A força e o trabalho da mente estão na base de todas as transformações pessoais e colectivas da humanidade porque nós, indivíduos e povos, realmente evoluímos em profunda comunhão telepática com todos aqueles espíritos encarnados ou desencarnados que se afinam connosco.
A sobrevivência da alma e a possibilidade dos espíritos se comunicarem está amplamente demonstrada pelos factos espíritas, investigados com todo o rigor científico por numerosos e iminentes sábios e investigadores do século passado e deste século. A proibição moisaica de invocar os mortos já não se justifica em nossos dias.
O intercâmbio espiritual ou mediúnico praticado pelo Espiritismo, faz-se pelo predomínio da razão e da ciência e tem como principal finalidade a elevação espiritual e o aperfeiçoamento dos espíritos encarnados e desencarnados, com base nos sentimentos de solidariedade e de fraternidade. Assim, a prática mediúnica bem orientada é um factor de progresso humano, pelos benefícios que produz, tanto no mundo invisível, quanto no mundo material.
Repelir as comunicações dos espíritos é repudiar o meio mais poderoso de instruir-se pela iniciação nos conhecimentos da vida futura. Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos espíritos é, por esse facto, médium. Essa faculdade é inerente ao ser humano, não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Atraímos os espíritos que se afinam connosco, tanto quanto somos por eles atraídos. Quando desenvolvido o dom mediúnico, que gratuitamente recebemos de Deus, deve ser utilizado gratuitamente. O médium de elevados princípios morais, que encontra na vivência evangélica a sua conduta de vida, cumpre o exercício da mediunidade com trabalho e paciência e a ele se dedica exclusivamente por amor. Geralmente, os médiuns têm uma aptidão especial para diferentes fenómenos. Os tipos de mediunidade são tão variados quantas são as espécies de manifestações. A escrita manual é o mais simples e o mais completo meio de comunicação. É por esse meio que os espíritos revelam melhor a sua natureza e o grau do seu aperfeiçoamento ou de sua inferioridade.
"Os espíritos evoluídos ensinam-nos que o ser humano que se liberta da matéria por não priorizar as futilidades mundanas e por cultivar o amor ao próximo, aproxima-se da natureza espiritual. A moral dos espíritos superiores resume-se, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: fazer aos outros o que queríamos que os outros nos fizessem, isto é, fazer o bem e não o mal. Neste princípio encontramos uma regra universal de proceder, mesmo para as nossas menores acções. Cada um de nós deve tornar-se útil, segundo as faculdades e os meios que Deus nos colocou nas mãos para nos provar. Eles nos ensinam, também, que não há faltas ou erros irreparáveis. O ser humano encontra o meio necessário, nas diferentes existências, para avançar segundo o seu desejo e os seus esforços em direcção à perfeição que é o seu objectivo final.
Este é o resumo da doutrina espírita como ela aparece no ensinamento dos espíritos superiores. O Espiritismo, que apenas acaba de nascer, ainda é muito pouco compreendido na sua essência por grande número de adeptos, mas posso imaginar uma associação ou sociedade em que os seus componentes se reúnam com o propósito de se instruírem e não na expectativa de presenciarem fenómenos extraordinários, uma associação indissolúvel onde haja confiança mútua e recíproca benevolência, uma associação que exclua o constrangimento que nasce da susceptibilidade, do orgulho que se irrita à menor contradição e do egoísmo que só se interessa por si. Esses grupos, correspondendo-se entre si, visitando-se, permutando observações, podem desde já formar o núcleo básico que um dia reunirá todas as opiniões, unindo os homens no mesmo sentimento de amor e de fraternidade cristã."
Assim, embora tenha previsto a possibilidade de as reuniões espíritas atraírem um número bastante elevado de participantes, Kardec aconselha que essas reuniões se multipliquem, de preferência através da constituição de grupos menores. Espalhados por todo o mundo, os centros espíritas constituem-se em abençoadas escolas. São centros de estudo, de fraternidade, de oração e de trabalho. Pelo volume de obras que realizam tornaram-se, também, verdadeiras instituições sociais e assistenciais que têm sempre presente o espírito do núcleo básico de que nos fala Kardec. Núcleo de amor onde o aperfeiçoamento individual é prioritário porque leva naturalmente ao aperfeiçoamento do grupo social e da humanidade.
Nosso sistema planetário não ocupa senão um ponto ínfimo no Universo, situado quase no final da Via Láctea, uma galáxia onde existem aproximadamente 40 bilhões de estrelas, algumas tão grandes que uma só toma o espaço igual ao ocupado pelo nosso Sol e quase todos os planetas em sua órbita. Uma das galáxias mais próximas, a nebulosa de Andrómeda, dista do nosso sistema solar cerca de 680 mil anos luz. Ora, se o Universo tem tais dimensões e se o número de planetas existentes conta-se pela ordem de trilhões ou mais, seria ingenuidade supor que apenas a Terra seja habitada por seres racionais.
Segundo o Espiritismo, nos mundos que gravitam no espaço infinito, outras humanidades em vários graus de adiantamento encontram habitação adequada ao seu avanço.
De entre os mundos inferiores encontra-se a Terra, com suas expiações e provas, com seus extremismos políticos, intolerâncias ideológicas, fanatismos religiosos e injustiças sociais. Aqui, os seus habitantes levam uma vida instável, de lutas e trabalhos penosos, com mais momentos de infelicidade do que de alegria.
A época actual é de transição, é a época em que convivem os espíritos de vários níveis de adiantamento. Assistimos à partida de uns e à chegada de outros. A evolução é contínua. Em cada criança que nascer, em vez de um espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um espirito mais adiantado e propenso ao bem.
Por meio do trabalho ético e humanitário, combatemos os nossos orgulhos e egoísmos. Por meio do diálogo superamos as nossas diferenças. Por meio da solidariedade pomos em prática o ensino do Cristo, de amor ao próximo.
Este é o destino imediato da Terra, planeta de regeneração.
Continuando no seu progresso ininterrupto, a Terra e sua humanidade ascenderão a planos cada vez mais altos, até à perfeição a que todos os mundos e seres estão predestinados.
Adaptação do filme “O Espiritismo de Kardec aos nossos dias”, baseado na obra de Allan Kardec, acedido em http://www.youtube.com/watch?v=r-jZTGLXyN8, dividido em seis partes, com Direcção de Marcelo Taranto, Produção de Alberto Graça e Francisco Azevedo, e Realização da FEB-MPC e Associados)
