Um dia desses, percorrendo os corredores desta Casa Espírita, encontrei contigo. No curto espaço de tempo em que nossos passos se emparelharam prestei atenção em teu olhar. Um olhar desesperançado, sem brilho, diferente dos olhos daqueles que amam. Parecias vazio de ti mesmo.Preocupado, passei a te observar mais de perto buscando sondar tua alma. Não precisou muito para que eu descortinasse aquilo que estava por trás de teu pálido sorriso e das atitudes que buscam mascarar a tristeza. Por isso lembrei os Salmos de David e em especial o de número 77 que assim está registado:
Clamei ao Senhor com a minha voz e ele inclinou para mim os ouvidos. No dia da minha angústia busquei ao Senhor; minha mão se estendeu de noite e não cessava, a minha alma recusava ser consolada; sustentaste os meus olhos vigilantes; estou tão perturbado que não posso falar.
Através do Salmo 88, David mais uma vez clamou:
Senhor, Deus de minha salvação, de dia e de noite clamo diante de ti. Chegue à Tua presença minha oração, presta ouvidos ao meu clamor! Pois minha alma está saturada de desgraças (...)
Mas, eu clamo por socorro; de manhã minha oração já está diante de Ti. Senhor, porquê rejeitar-me, esconder-me a tua face? Sou infeliz e enfermo desde criança.
Lembrei os Salmos de David porque, não obstante a beleza de seus versos, existe uma tristeza latente, a mesma tristeza que se percebe naqueles que têm a alma doente. Bem por isso se diz que a primeira notícia que se tem da tristeza da alma foi publicada na Bíblia, mais especificamente nos Salmos de Lamentação de autoria do Rei David. No tempo do rei David não existiam os recursos médicos de hoje e ele atravessava as noites escuras de sua alma orando a Deus em forma de versos que chamamos de salmos.
Sabemos que o crescimento desordenado dessa tristeza que invade nossos sentimentos e emoções produz o câncer da alma ou aquilo que modernamente se nomeia depressão.
Em nossos dias, o depressivo percorre os consultórios médicos e divãs de analistas acreditando que tal medida é suficiente para a cura do câncer da alma. Toma remédios, frequenta o consultório do psicólogo e deixa na mão de tais profissionais toda a responsabilidade de sua cura, sem participar pessoalmente da faxina interior para remoção dos entulhos que impedem a entrada da alegria em seu coração. É tão pouco o que faz por si mesmo que nos leva a concluir que tanto o psiquiatra quanto o psicólogo não podem fazer milagres, pois, o paciente não os ajuda.
Que faz o paciente depressivo para ajudar os profissionais da saúde a lhe devolverem a alegria, além de tomar a medicação prescrita e falar de maneira superficial o que lhe aperta o coração? Digo superficial, pois, a grande maioria deixa de contar aos profissionais que lhe assistem tudo aquilo que vem vivenciando, por vergonha, orgulho e desconhecimento de si, de seu próprio interior.
Para debelar a depressão, sabemos disso, precisamos vencer uma árdua batalha onde se torna muito necessário o concurso da fé e da razão.
A fé e a razão são duas asas através das quais nosso espírito alça vôo ao encontro da verdade. Se observarmos um pássaro veremos que o mesmo jamais poderá levantar vôo com uma asa só. Assim, para livrar-se da depressão, o homem, além da medicação prescrita pelos técnicos da saúde necessita encontrar a verdade e a si mesmo. Usando corretamente a fé e a razão, os homens se descobrem, se perdoam e encontram o sentido para existirem e se realizarem.
A fé é o ato de aquiescer, de concordar, de aceitar algo que não é evidente, que não está expresso com clareza, mas, que é racionalmente aceite. Desse modo, de forma racional podemos aceitar que não temos capacidade para criar aquilo que está na natureza, como um belo por de sol, uma árvore, um animal, o homem. Tendo fé, acreditamos que algo maior nos criou e que esse algo maior é Deus.
A razão e a fé precisam, pois, andar juntas uma vez que aquilo que a razão humana não consegue compreender e que se afigura como mistérios, a fé se infiltra como uma luz que clareia e passa a orientar o homem, esclarecendo-lhe as respostas que não compreendidas racionalmente. Desse modo, não basta crer de maneira cega, pois, é necessário que se compreenda a fé.
A fé, irmão, precisa também ser exercitada. Nos momentos em que a alma fizer a travessia por sua noite escura, se o homem fizer seus apelos a Deus, assim como David fazia seus salmos, com toda a certeza sentirá o conforto Divino produzido pela prece. Não existe medicamento melhor para a alma do que a prece dirigida a Deus, conforme se lê no O Evangelho segundo o Espiritismo , cap. XXVIII, item 77, p. 430:
"A par da medicação ordinária, elaborada pela Ciência, o magnetismo nos dá a conhecer o poder da ação fluídica e o Espiritismo nos revela outra força poderosa na mediunidade curadora e a influência da prece.”
Voltando a David, observamos através da leitura de seus salmos que quando ele superava sua melancolia escrevia salmos de louvor, de ação de graças e lindos hinos celebrando a majestade de Deus, conforme o SALMO 23 de sua autoria que aqui quero te deixar para que repasses àqueles que vivenciam a noite escura da alma ensinando-lhes a buscar o aconchego de Deus:
O Senhor é meu pastor, nada me faltará.
Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes,
restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome.
Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estás comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo.
Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, e transborda minha taça.
A vossa bondade e misericórdia hã- de seguir-me por todos os dias da minha vida. E habitarei na casa do SENHOR por longos dias.
Com amor,
Irmão Y
IN: Rede Amigo Espírita: divulgar, instruir e unificar. "A prece como medicamento para a depressão" por Liudmila Carla Pinheiro, 23 de Junho de 2011.
