Emmanuel visita Lívia
A tarde era um escrínio de luz e a relva verde tinha tons de suprema beleza. Os nossos olhos bailavam no poente. Tudo sorria para nós e o amor das coisas simples irradiava das nossas almas.
Havia em tudo uma alegria de viver.
Chico conversava e a sua conversa alegre tornava o mundo mais belo e mais feliz. Os nossos pensamentos flutuavam à volta das coisas de Cristo, e sentíamos que ali não havia lugar para o mal.
Manso, manso como as pombas e feliz como uma criança risonha, o bom amigo expandia-se em comentários espirituais. Tudo era motivo de comparação no campo do espírito. Havia amor e compreensão e todos se compraziam na paz.
Falava-nos mansa e suavemente, com carinho. Faláva-nos de Emmanuel e nós exclamámos:
- Chico, na nossa opinião, Emmanuel também é o "Guia dos Namorados"!
Ele ria-se, ria-se de verdade daquele pensamento.
- Senão, veja, acrescentámos nós, a teoria das almas gémeas não é uma defesa do amor? Duas almas ligadas pelos laços da mais perfeita compreensão, que se amam e que um dia, após milénios de lutas, se hão-de juntar na "Perfeita União" ou na "União Divina". Não escreveu Emmanuel o Há dois mil anos e o Renúncia, que são romances de amor?
Chico ria e confirmava: "É verdade, o nosso Emmanuel é um coração generoso! Vocês não sabem, mas uma vez por semana, Emmanuel visita Lívia na esfera onde esta se encontra. Para isso, tem de passar por uma câmara de purificação, onde deixa os fluidos pesados da Terra, de modo a poder penetrar na esfera de Lívia, que está numa situação superior."
A revelação era sugestiva e era a oportunidade para uma série de divagações. Recordámos as lutas de Emmanuel, como o senador romano Publius Lêntulus que um dia viu da bancada do Circo Máximo, a mulher que amava encaminhar-se resolutamente para a morte por amor a Cristo, e lembrámo-nos também do terremoto de Pompéia, onde a avalanche de pedras o venceu. [vidé o livro "Há dois mil anos"]
O passado histórico de Jerusalém e Roma, os sacrifícios do amor, tudo passou nesse instante pela nossa retina.
Apesar disso, retrucámos:
- E isso não é coisa de namorado, Chico? Chega o fim da semana, Emmanuel toma o seu banho e vai ver a namorada...
Chico continuava a rir-se.
- Este Ranieri tem cada ideia!
- Continuo acreditando que Emmanuel é o Guia dos Namorados, daqueles que se amam na fase mais pura da vida e do amor.
Relatou-nos ainda o bom amigo, que Lívia era um espírito de uma ordem mais adiantada que Emmanuel, porque já no tempo de Roma ela aceitara o Cristianismo, reunia-se com os cristãos , e sacrificara-se em nome de Jesus, enquanto que Emmanuel, naquela época, era ainda o orgulhoso senador romano que, à beira do lago, perdera a grande oportunidade da sua vida, quando fora chamado pelo Senhor. [vidé o livro "Há dois mil anos"]
Desta informação, aparentemente simples e ingénua, exposta no decorrer de uma conversa de amigos, numa tarde cálida de verão, entre muitas outras informações extraordinárias, podemos tirar conclusões interessantes.
Vê-se que o verdadeiro amor se mantém no plano espiritual com a mesma ou maior intensidade. Ao vermos a delicadeza de Emmanuel, de regressar após cada sete dias de trabalho, para comunhão pessoal e espiritual com a sua amada, e a sua submissão à câmara purificadora, em concordância com a passagem descrita por André Luiz, onde aparece a senhora Laura a receber no seu lar Lísias e o próprio André [vidé o livro "Nosso Lar"], compreendemos que no plano da vida imortal, também há lar e amor, mais sublime, mas ainda individualizado, tal como aprendemos que lá, também a saudade se acalma com a visita periódica, onde recordam o passado e traçam planos para o futuro. Infinita é a bondade divina, que permite que duas almas se reencontrem para a renovação das alegrias do espírito.
Nós, que aprendemos a amar Emmanuel como o sábio e o amigo, passámos a ver nele também o companheiro carinhoso que busca a companheira e percebemos que, por se encontrar Lívia numa Esfera Superior, o nosso querido amigo se mantém na condição de exilado que luta em favor de todos, até que um dia alcance a glória de conviver com a sua amada nos planos espirituais.
Veio-nos, então, à mente aqueles versos de Emmanuel no "Almas Gémeas":
Alma gémea da minh'alma
Flor de luz da minha vida
Sublime estrela caída
Das belezas da multidão
e a resposta de Lívia noutro poema imortal:
"Eu te espero nesta vida
Através da eternidade!..."
Fica-nos na alma a doçura e o carinho, ressoando como esperança para os tristes que esperam um dia encontrar a alma da sua alma e regressar ao mundo onde a luz e a claridade nos abrem os olhos para a visão radiosa de Deus.
In: Chico Xavier: páginas de uma vida (ISBN 9789899582736)
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